quarta-feira, 22 de abril de 2009

DataTársis Informa: Para gostar de Quadrinhos

Conversando informalmente com minha amiga Silvana, bibliotecária e expert em leitura para crianças e jovens, ela demonstrou toda sua inquietação diante do fato de não conhecer praticamente nada sobre gibis. Essa conversa me motivou a escrever uma singela lista indicando alguns títulos em quadrinhos fundamentais para gostar ou pelo menos conhecer um pouco do que as HQs podem oferecer. E, principalmente, desfazer essa idéia secular de que gibi é coisa de criança.

Verdade que os meios acadêmicos perderam um pouco do ranço preconceituoso e, agora, muita gente se deu conta do poder dos quadrinhos, sobretudo no âmbito educacional. Resta escolher seu favorito, indicar, ler e se divertir!

Embora os leitores habituais desse espaço já saibam disso, vale dizer que este texto é didático e para leigos. Daí esta pequena introdução.

Revistas em Quadrinhos ou Gibis: é uma forma de arte ilustrada que mistura texto e imagem com o objetivo de narrar histórias dos mais variados gêneros e estilos. Além disso, os quadrinhos movimentam uma indústria poderosa que influencia outras artes - sobretudo o cinema - e movimenta milhões de dólares em subprodutos licenciados, fazendo a cabeça de gerações de fãs em todo o mundo.

Os gêneros
Os mais conhecidos da mídia são os quadrinhos de super-heróis, que basicamente se desenvolveram nos Estados Unidos, o maior consumidor mundial de gibis deste e de outros gêneros.

No Japão, há os mangás, lidos de trás para frente e com temas variados. O Japão é o segundo maior produtor e consumidor mundial de quadrinhos.

Existem outros gêneros de gibis, como os underground (designação para quadrinhos com temáticas adultas e subversivas), muito forte nos Estados Unidos, mas que existem em outros países incluindo o Brasil.

Há os quadrinhos franco-belgas, que não tratam necessariamente de super-heróis, assim conhecidos por terem nascido e se desenvolvido na França. Há os fumetti, quadrinhos italianos, que tratam de heróis que não têm necessariamente superpoderes.

As editoras
Existem muitas editoras tradicionais de quadrinhos em todo o mundo. Nos Estados Unidos, duas grandes editoras dominam o mercado:

DC Comics, criadora do Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Liga da Justiça etc; e Marvel Comics, criadora do Homem-Aranha, Homem de Ferro, Quarteto Fantástico, Thor, Hulk, Vingadores etc.

Curiosidade: cada editora trabalha com seus personagens e os encontros entre eles aconteceram poucas vezes; logo não é comum ver o Homem-Aranha junto com o Superman simplesmente porque eles existem em universos diferentes!

No Brasil temos diversas editoras que publicam quadrinhos, seja em formato convencional ou em edições especiais. Conrad, Panini e Devir são algumas das principais.

Dicas, truques e leituras.
Não se trata de um grande guia e sim apenas uma (curta) lista de leitura agradável e recomendada para um público não tão afeito ao gibi. Quem quiser contribuir com suas próprias dicas, fique à vontade.

1. Batman, A Piada Mortal
Super-heróis sempre sofreram um preconceito histórico por parte dos meios acadêmicos. Ao longo dos anos a temática heróica foi se transformando, até que grandes roteiristas utilizaram ícones heróicos para produzir histórias inquietantes e com temática adulta. Como Batman e Coringa são conhecidos do grande público, A Piada Mortal é uma leitura obrigatória: narra a suposta origem do Palhaço do Crime recriada pelo grande escritor dos quadrinhos, o renomado Alan Moore. Sua narrativa é complexa e exige uma análise profunda dos personagens e seu simbolismo, além das tramas contadas paralelamente. É uma história pesada e violenta, na qual o Coringa expõe o auge de sua insanidade. Se você considera super-heróis uma besteira, esteja preparado para o choque.

2. Um Contrato com Deus
Graphic Novel é um termo usado para designar um quadrinho especial, uma obra completa de quadrinhos com teor literário, temas adultos e muitas vezes em formato encadernado. O mestre Will Eisner, criador do termo, não é reverenciado à toa. Eisner, falecido em 2005, participou de toda a história da industria americana de quadrinhos. Criou o personagem The Spirit, ensinou Técnicas de Quadrinhos na Escola de Artes Visuais de Nova York e escreveu obras fundamentais sobre o tema: Os Quadrinhos e a Arte Sequencial (Comics and Sequential Art) e A Narrativa Gráfica (Graphic Storytelling).

Um Contrato com Deus & Outras Histórias de Cortiço é um marco dos quadrinhos. Foi lançada originalmente em 1978 e mostra quatro histórias de pessoas comuns, que vivem no pobre bairro do Bronx nos anos 30. Leia esse belíssimo gibi e se emocione. Dica: procure a bibliografia de Eisner para conhecer outras obras espetaculares deste mestre dos quadrinhos.

3. Sandman, o mestre dos sonhos
Escrita pelo renomado Neil Gaiman, autor de numerosos sucessos de crítica e público, a série Sandman foi relançada no Brasil em 2005 e mistura terror, sonho e fantasia, em um mergulho ao mundo da mitologia, da magia e do universo fantástico. O Mestre dos Sonhos, Sandman, é aprisionado por um grupo de ocultistas e após se libertar começa sua busca para reaver as ferramentas de poder roubadas e, claro, vingança!

A série que recebeu diversos prêmios nacionais e estrangeiros e rendeu uma belíssima edição encadernada da editora Conrad, com direito a prefácio especial do próprio Neil Gaiman aos fãs brasileiros. Dica: São muitos encadernados, comece a história pela ordem correta. Os adolescentes adoram as histórias do Sandman, especialmente as meninas.

4. Asterix
Asterix é um baixinho gaulês criado na França por Albert Uderzo e René Goscinny em 1959. Suas histórias foram traduzidas para mais de 100 idiomas, sendo lançados 33 álbuns, 11 adaptações para o cinema (8 animações e 3 com atores), jogos, brinquedos e um parque temático. É um verdadeiro ícone dos quadrinhos franco-belgas, um tipo de quadrinho não baseado em super-heróis de extrema qualidade. Procure algum desses álbuns lançados no Brasil e divirta-se! Dica: As histórias são ótimas, os personagens divertidos e a leitura é indicada para todas as idades.

5. Príncipe Valente
Harold Foster, um dos mestres criadores dos primórdios dos quadrinhos, publicou a primeira tira do Príncipe Valente em 1937. O personagem é contemporâneo do mítico Rei Arthur, vive histórias primorosas ambientadas numa arte paisagística e foi elaborado com rigor acadêmico em contrates de preto e branco, Foster soube dar beleza e profundidade humana aos personagens, sem perder a magia de suas aventuras e batalhas. Considerado um clássico dos quadrinhos, é leitura imperdível. Dica: Editado em volumes no Brasil, alguns esgotados, o segredo é garimpar em sebos especializados ou livrarias.

6. Watchmen
HQ criada por Alan Moore e David Gibbons no sanos 80. No contexto dos quadrinhos daquela época, Watchmem é uma das obras responsáveis por despertar o interesse do público adulto para um formato até então considerado infanto-juvenil. A premissa básica é: como seria o mundo real se existissem heróis mascarados? Apresentando uma trama complexa e personagens ambíguos, Watchmen é um clássico contemporâneo, cuja história acabou de receber uma ótima versão cinematográfica. Dica: A trama envolve questões históricas e morais, os personagens são complexos e a trama, densa. Indicado também para quem gosta de contos policiais.

7. Valsa com Bashir
Obra criada por Ari Folman com ilustrações de David Polansky, sobre material original do documentário israelense homônimo. Narra a história de um ex-soldado israelense que tenta recuperar a memória perdida em um massacre de palestinos do qual participou. É uma obra pesada e que narra episódios de guerra nunca antes relatados. Dica: A Valsa com Bashir é uma adaptação de um documentário animado, procure!

8. Os Lusíadas em Quadrinhos
A clássica epopéia de Luís Vaz de Camões, publicada originalmente em 1572, virou uma HQ nas mãos do ilustrador e cartunista paulistano Fido Nesti. A edição tem uma breve biografia de Camões, também em quadrinhos, contada por ele mesmo. Fido escolheu as mais interessantes passagens dos 8.816 versos da obra original e as transformou no segundo título da série Clássicos em HQ – o primeiro é uma versão de Dom Quixote pelo cartunista Caco Galhardo. Dica: Compre!

9. Os Fugitivos
Fugitivos (Runaways) foi criada pelo badalado roteirista Brian K. Vaughan e ilustrada por Adrian Alphona. Trata-se de um grupo super-heróis adolescentes que descobre que seus pais são um grupo de supervilões. Com isso, resolvem fugir de casa e usar suas habilidades para derrotá-los. As histórias envolvem aventura, morte reviravolta e personagens carismáticos.

10. Giovanna Casotto
Ilustradora italiana de quadrinhos eróticos. A beleza de seu trabalho aliada a histórias de sacanagem explícita fizeram de Giovanna Casotto uma espécie de embaixatriz italiana do sexo. Casotto obteve reconhecimento e sucesso pela Europa e Estados Unidos com suas ilustrações impecavelmente realistas. O tratamento editorial dado ao seu livro, lançado no Brasil pela editora Conrad, faz de Casotto uma obra de arte – para maiores de 18 anos. Dica: Use com moderação e libere as fantasias ;-)

11. Calvin e Haroldo
Criada em 1985 pelo misantropo Bill Waterson, que durante dez anos alegrou crianças e adultos em mais de 2.400 jornais ao redor do mundo. Calvin é um guri hiperativo de seis anos, cujo maior amigo é o tigre de pelúcia Haroldo - que ganha vida quando não existe nenhum adulto por perto. Ao lado das fantasias e brincadeiras da dupla, surgem questões sobre política, cultura, sociedade e a relação de Calvin com seus pais, colegas e professores. Dica: Existem diversos encadernados de Calvin e Haroldo lançados no Brasil. Compre todos se puder.

12. Níquel Náusea
Genial criação do cartunista paulistano Fernando Gonsales, um veterinário e autor de histórias em quadrinhos, seu personagem Níquel Náusea começou a ser publicado na Folha de São Paulo em 1985, onde está até hoje. Níquel Náusea é uma evidente trocadilho com o famoso rato da Disney, Mickey Mouse, e as tiras trazem tiradas humorísticas sempre ambientadas por animais. Dica: Existem diversos encadernados, muitos coloridos, todos excepcionais.. Compre todos se puder.

Um mundo inteiro de bons quadrinhos ficou de fora, mas aqui há um bom começo. Gibis existem para todos os gostos, idades e bolsos. Lembre-se que tanto nas bancas como em revistarias, sebos e lojas especializadas, muitas revistas podem ser encontradas a preços acessíveis e são uma fonte inesgotável de diversão, prazer e leitura de qualidade.

4 comentários:

Aliengirl disse...

Tarsis, valeu pela dica, muito bom o texto

Sávio Christi disse...

Esqueceram de informar como se chama a história em quadrinhos franco-belga (que por sinal, segundo a Wikipédia Espanhola, também tem relação direta com a Suíça): bande dessinée (ou em bom português: banda desenhada; nome este também usado em Portugal para definir quadrinhos).

Os italianos na verdade seriam fumetto no singular e fumetti no plural; mas muitas pessoas (incluindo eu mesmo) usam fumetti e fumettis normalmente.

Outra coisa interessante: em Portugal e Angola, mangá não tem acento; o que fica estranho; dada a óbvia e tamanha semelhança com a fruta manga e a manga do paletó (mas também: não sei direito como se pronuncia em japonês).

Mas que eu saiba, os quadrinhos espanhóis e ingleses não são definidos como próprios estilos de seus países, não têm assim, algum fator individual e próprio.

O quadrinho espanhol se chama tebeo (nome duma revista; TBO); mais ou menos como gibi era o nome duma revista daqui; já o inglês, penso que seria simplesmente um "British comics" mesmo (ou ainda: "Welsh comics").

Sendo que o mangá é realmente o formato mais diferente e interessante de todos afinal (a Wikipédia é a prova disto: é o artigo de quadrinhos por formato mais extenso e longo quanto ao conteúdo e aos detalhes)...

Sávio Christi disse...

Vejam também que; nas bancas, existem mais quadrinhos estadunidenses, brasileiros, japoneses e italianos (são estes os que realmente predominam; os fumettis inclusive geralmente são expostos ao lado dos mangás): os franco-belgas são mais comuns em livrarias; enquanto os chineses e sul-coreanos necessitam de mais força e impulso até...

Algo mais que observei: os únicos países na África e Oceania conhecidos na publicações de quadrinhos são apenas 4: África do Sul, Egito, Nigéria e Austrália (se a Wikipédia Inglesa estiver certa); nenhum deles com estilo próprio assim (pior mesma a América Central; que não é conhecida nem por produzir historinhas locais; nem por vender as importadas, o Google e o Yahoo! mesmos não trazem resultados contendo: "quadrinhos centro-americanos").

Falando na Wikipédia (Inglesa): curioso notar que; o artigo para quadrinhos indonésios usa o próprio nome dos quadrinhos locais (maqita; no caso); mas até os termos manhua (a HQ chinesa) e manhwa (a HQ sul-coreana) são bem mais conhecidos ao redor do Mundo, e maqita também não é reconhecido popularmente como estilo pessoal ou particular e próprio (assim como o tebeo que é espanhol; embora a Wikipédia redirecione tebeos para "Spanish Comics" (e por sinal: qual será a razão de, por ex., a do México ser "Comics in Mexico"; e não "Mexican comics"?))...

Também não saquei, porque dizem que maqita é cognata de mangá, manhua e manhwa; se a grafia nem é tão semelhante; mas aprendi mais 2 coisas: fumetto em inglês é mais usado ao se referir a um próprio gênero de quadrinhos, e bande dessinée também pode se referir em menor escola a quadrinhos do Quebec (província canadense); sem falar no fato de TBO ter mais artigos com outros significados.

Sávio Christi disse...

Mas consultem a Wikipédia e a Ferramentas de Idiomas do Google: elas informam os nomes dados aos quadrinhos em quase todos os idiomas e principais países no Globo, eu mesmo achei bem engraçado o nome dado em africâner (da África do Sul).

Agora, eu já considero que estamos a meio-caminho dado com nosso estilo característico e particular de gibi afinal: eu mesmo escrevo 2 HQs como gibis; sendo uma delas bem forte e picante; com a outra bem mais leve e moderada!

E a palavra personagem é feminina: vem de "persona" que é pessoa em espanhol, italiano e latim, e palavras acabadas em "agem" são quase sempre femininas; podem crer?

Termino aqui indicando os melhores livros teóricos de quadrinhos que conheço, e de quebra, um sobre a história do Rock (AH sim: não li os 2 últimos, são cortesias de indicações dum amigo meu): "Desvendando os Quadrinhos", "Reinventando os Quadrinhos" e "Desenhando Quadrinhos" (de Scott McCloud), "Almanaque dos Quadrinhos" (de Carlos Patati e Flávio Braga), "Mangá ― Como o Japão Reinventou os Quadrinhos" (de Paul Gravetti), "Red Rocket 7 ― A Saga do Rock" (de Mike Allred), "Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos" (de Nildo Viana), "A Guerra dos Gibis" (de Gonçalo Junior)..., "Narrativas Gráficas - Princípios e Práticas da Lenda dos Quadrinhos", e "Quadrinhos e Arte Seqüencial (os 2 últimos de Will Eisner, e como falei: não li ainda; mas segundo um amigo meu, compensam bastante).

Bom, fico por aqui então!

Abraços e até a próxima; podem crer?